O Brasil registra um crescimento acentuado na busca por tratamentos e diagnósticos de saúde mental, fenômeno impulsionado principalmente pela Geração Z. Um levantamento realizado pela empresa de bem-estar corporativo Vidalink aponta que, em 2024, a compra de medicamentos para a mente entre jovens de 18 a 28 anos cresceu 7%, superando qualquer outro grupo demográfico. Especialistas alertam, no entanto, que o aumento no reconhecimento desses males vem acompanhado de uma tendência perigosa de transformar desconfortos cotidianos e experiências humanas comuns em categorias clínicas. Segundo a psicóloga Pietra Breyer, o cenário atual reflete uma patologização da existência, em que sentimentos normais são tratados precocemente como patologias sem o devido respaldo médico.
Essa pressa por respostas tem gerado o que médicos descrevem como diagnósticos fast-food, caracterizados por consultas rápidas e falta de profundidade clínica. Diferente de exames laboratoriais objetivos, as condições mentais exigem avaliações subjetivas e cuidadosas, uma vez que o ponto de corte entre a saúde e o transtorno pode ser arbitrário. Quando o diagnóstico é realizado por profissionais sem a formação adequada ou de maneira apressada, há um risco elevado de prescrição de medicamentos desnecessários, o que pode resultar em dependência química e efeitos colaterais graves. O alerta recai sobre a necessidade de diferenciar o sofrimento existencial de transtornos que realmente demandam intervenção farmacológica.
Além das pressões geracionais, novos fatores de risco têm surgido no ambiente digital e corporativo. O endividamento causado por apostas online e a evasão universitária tornaram-se novos gatilhos para transtornos de ansiedade entre os jovens. No ambiente de trabalho, o cansaço constante tem sido frequentemente identificado como síndrome de burnout, condição que exige mais do que apenas períodos de férias para uma recuperação efetiva. O reconhecimento de neurodivergências, como o autismo e o TDAH em adultos, também tem crescido após o diagnóstico dos filhos, revelando uma busca tardia por compreensão sobre o funcionamento da própria mente em um mundo cada vez mais exigente.
O uso de substâncias químicas na adolescência surge como outro fator crítico para o comprometimento da saúde psicológica a longo prazo. Conforme explica o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, especialista em dependência química com 40 anos de atuação, a exposição precoce à maconha pode comprometer severamente o desenvolvimento e a funcionalidade do jovem. O risco é acentuado por fatores genéticos e ambientais; filhos de dependentes químicos enfrentam caminhos distintos, que vão desde o desenvolvimento de aversão total a substâncias até a repetição de padrões de dependência, muitas vezes maquiados pela troca de uma droga por outra. A intervenção precoce é apontada como a estratégia mais eficaz para evitar danos permanentes.
Em contrapartida, a manutenção da saúde mental passa pela integração de pilares de bem-estar que vão além do consultório médico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que a sexualidade e a busca pelo prazer são fundamentais para a qualidade de vida. Segundo a sexóloga Thalita Cesário, o autoconhecimento e o afastamento de tabus sociais permitem que o bem-estar sexual atue como um mecanismo de redução de estresse e depressão. Práticas como atividades físicas, meditação, manutenção de laços sociais e o cuidado com a alimentação são estratégias essenciais para o envelhecimento ativo e a preservação da mente, permitindo que o indivíduo lide melhor com as pressões sociais e as transições da vida adulta.