Tecnologia

Avanço da inteligência artificial redefine fronteiras entre eficiência técnica e segurança ética

Fonte(s): Folha de S.Paulo, Exame, g1 2 leituras
Avanço da inteligência artificial redefine fronteiras entre eficiência técnica e segurança ética
UCF Business Incubation Program - University of Central Florida

A inteligência artificial consolidou seu retorno ao centro do debate global a partir de 2010, impulsionada pelo avanço da computação em nuvem e pela técnica de aprendizado profundo, o deep learning. O que antes exigia programações complexas para definir padrões simples agora ocorre por meio do processamento massivo de dados, permitindo que máquinas identifiquem imagens e comportamentos de forma autônoma. Essa evolução tecnológica transformou a tecnologia em uma ferramenta onipresente, capaz de analisar volumes de informações que humanos não conseguiriam processar, tornando-se o motor de uma nova era de inovação industrial e social.

Na prática, a tecnologia já apresenta resultados concretos em setores críticos como a saúde e o desenvolvimento sustentável. Em hospitais como o 9 de Julho, em São Paulo, sistemas de monitoramento por câmeras detectam movimentos de risco em pacientes para evitar quedas, enquanto algoritmos analisam milhões de mamografias para identificar tumores com precisão superior à humana. Globalmente, projetos catalogados pela Universidade de Oxford aplicam a inteligência artificial para reduzir o desperdício de água na agricultura e identificar trabalho escravo por meio de imagens de satélite, demonstrando o potencial da ferramenta para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Apesar do otimismo, o funcionamento desses sistemas levanta dilemas éticos profundos, especialmente devido ao fenômeno da caixa negra, onde nem mesmo os desenvolvedores conseguem explicar detalhadamente como a máquina chegou a um veredito. O caso de Eric Loomis, nos Estados Unidos, ilustra essa tensão: ele foi condenado com base em um software cujos critérios a defesa não pôde contestar por serem sigilosos. Além da falta de transparência, o risco de viés é real, uma vez que a inteligência artificial aprende com dados do mundo real que podem conter preconceitos históricos, resultando em decisões discriminatórias em contratações ou julgamentos judiciais.

Avanço da inteligência artificial redefine fronteiras entre eficiência técnica e segurança ética
URBE University

Outra face crítica desse avanço é a saturação das redes sociais por conteúdos sintéticos hiper-realistas, conhecidos como slop. Estima-se que um em cada cinco vídeos recomendados a novos usuários em plataformas de compartilhamento já seja gerado por inteligência artificial, criando um desafio sem precedentes para a distinção entre o que é real e o que é fabricado. Vídeos de animais em situações impossíveis ou de infraestrutura urbana bloqueada por protestos inexistentes apelam para a emoção do usuário e incentivam o compartilhamento rápido, minando a confiança pública na informação visual e exigindo novas ferramentas de checagem.

Diante desses riscos, a União Europeia tem liderado o desenvolvimento de diretrizes éticas para garantir uma tecnologia confiável, focando em salvaguardas para dados pessoais e na obrigatoriedade de mecanismos que permitam a revisão humana dos resultados. Paralelamente, o mercado de trabalho enfrenta uma escassez de profissionais especializados, o que tem levado grandes empresas a oferecer soluções simplificadas de criação de sistemas para contornar a falta de mão de obra qualificada. Especialistas como o professor Renato Rocha Souza apontam que, embora as questões éticas sejam fundamentais, a história mostra que tecnologias raramente são abandonadas por esses motivos, tornando a regulamentação o caminho mais provável.

O futuro da inteligência artificial depende agora do equilíbrio entre a exploração de suas capacidades e a implementação de transparência algorítmica. As discussões atuais sugerem que empresas e engenheiros devem criar meios para que qualquer pessoa possa impugnar resultados automatizados em seleções de emprego, exames médicos ou processos judiciais. À medida que o processamento potente se torna mais acessível e barato, a pressão por marcos regulatórios globais tende a aumentar para assegurar que a inovação não comprometa direitos fundamentais.

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