A saúde mental consolidou-se como a principal preocupação de saúde para 52% dos brasileiros, superando inclusive o temor em relação ao câncer, que é citado por 37% da população. O dado, proveniente do relatório Health Service Report 2025, coloca o Brasil acima da média global de preocupação com o bem-estar psíquico, que é de 45%. O país é atualmente considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo. Esse cenário reflete-se no sistema público, onde o SUS registrou, em apenas um ano, 600 mil atendimentos por ansiedade e quase 200 mil por depressão, evidenciando uma pressão sem precedentes sobre os serviços de suporte emocional e psiquiátrico.
Apesar da clareza dos dados sobre o sofrimento psíquico, especialistas observam um efeito colateral preocupante: uma possível epidemia de diagnósticos e a patologização de experiências humanas comuns. De 2023 a 2025, o consumo de antidepressivos entre brasileiros subiu 13%, impulsionado em grande parte pela Geração Z. Para o psiquiatra Luis Augusto Rohde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, há um excesso tanto na prescrição de medicamentos de tarja preta quanto na busca por diagnóstico para desconfortos cotidianos, como cansaço e estresse. A psicóloga Pietra Breyer reforça que vivemos um momento em que sentimentos inerentes à vida adulta são transformados em categorias clínicas sem o devido respaldo médico, o que pode mascarar as causas reais do mal-estar.
A manifestação dessas condições costuma ser silenciosa e se revela em mudanças discretas na rotina. De acordo com a psicóloga Cibele Santos, um dos indicadores mais sofisticados de que a saúde mental está sob pressão é quando o indivíduo deixa de viver para apenas operar, entrando em um estado de sobrevivência automática. Sintomas como culpa excessiva, pensamentos repetitivos e a perda da fluidez no cotidiano são sinais de alerta que precedem colapsos maiores. O psiquiatra Ricardo Patitucci, diretor clínico da Clínica da Gávea, ressalta que o sono é um dos principais termômetros dessa saúde; a insônia costuma ser um dos primeiros sintomas de quadros de ansiedade e depressão, servindo como um marco para a necessidade de intervenção profissional.
O impacto desses transtornos atinge grupos específicos de forma aguda, como os médicos veterinários, dos quais 84% relatam sentir-se deprimidos ou irritados em pesquisas recentes. Além do sofrimento individual, o estresse crônico é apontado por psiquiatras como um gatilho capaz de atrofiar estruturas cerebrais se não for tratado. Casos de emergência psiquiátrica, como quadros psicóticos agudos e desmaios durante crises de ansiedade, têm ganhado visibilidade pública, reforçando a necessidade de diferenciar reações emocionais intensas de transtornos que exigem cuidados especializados imediatos. A pandemia de Covid-19 é apontada pela Fiocruz como o catalisador que acentuou esses sintomas de estresse e ansiedade na população geral.
Para enfrentar o cenário em 2026, a medicina enfatiza a adoção de hábitos práticos que fortalecem a resiliência emocional antes que os quadros se agravem. As recomendações centram-se na manutenção de uma rotina regular de sono, combate ao sedentarismo e, crucialmente, na desconexão das redes sociais. Especialistas sugerem que pequenas mudanças, como validar as próprias emoções e estabelecer limites claros entre o trabalho e a vida pessoal, especialmente no regime de home office, são fundamentais para reduzir a sobrecarga mental. A terapia é apresentada não apenas como tratamento, mas como uma ferramenta de autoconhecimento essencial para prevenir a evolução de sintomas leves para quadros clínicos severos.
O futuro da saúde mental no Brasil depende do equilíbrio entre o acesso ao tratamento adequado e a cautela com o excesso de medicalização. Enquanto plataformas de inteligência artificial começam a ser testadas para auxiliar na identificação de sinais de depressão pela voz, o desafio das autoridades de saúde permanece em oferecer suporte para 1 bilhão de pessoas que, segundo a OMS, convivem com algum transtorno mental no planeta. A expectativa é que o fortalecimento das redes de suporte e a educação sobre os sinais de alerta possam reduzir o impacto econômico e social dessas doenças, permitindo que a busca por bem-estar seja fundamentada em critérios clínicos rigorosos e mudanças sustentáveis no estilo de vida.