O exercício da medicina no Brasil passa por mudanças estruturais com a implementação do Exame Nacional de Medicina (Enamed) como requisito obrigatório para a profissão, ao mesmo tempo em que inovações tecnológicas como a telecirurgia robótica e a inteligência artificial ganham escala nos hospitais. Uma medida provisória estabeleceu que a aprovação no exame, aplicado a estudantes do sexto ano, é condição para o registro profissional, visando assegurar a qualidade da formação acadêmica diante de um cenário de expansão de cursos e novas terapias complexas. Enquanto a regulação se torna mais rígida, avanços científicos permitem procedimentos inéditos, como a primeira telecirurgia robótica realizada entre continentes por um médico brasileiro e o uso de células CAR-T no Sistema Único de Saúde (SUS).
O Enamed, que começou a ser aplicado em 2025, registrou um índice de proficiência de 67% entre os formandos no seu primeiro ano, com desempenho inferior observado em instituições privadas e municipais. A nova legislação também prevê que alunos do quarto ano realizem a prova para fins de diagnóstico institucional, permitindo que o Ministério da Educação (MEC) intervenha em cursos com resultados insatisfatórios por meio da redução de vagas ou suspensão de vestibulares. Além da prova, o governo criou o Sistema Nacional de Avaliação da Residência Médica para padronizar a especialização no país, mantendo o sigilo sobre notas individuais, que constarão apenas no histórico escolar do aluno.
No campo da tecnologia assistida, hospitais de referência como a Santa Casa e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre testam sistemas de inteligência artificial capazes de identificar riscos de câncer de mama e de pele, além de agilizar laudos de raio X de tórax para menos de 20 minutos. Essas ferramentas visam aumentar a produtividade sem substituir o fator humano, considerado fundamental para o acolhimento do paciente. Paralelamente, o Conselho Federal de Medicina reforçou restrições éticas ao proibir o uso de PMMA para fins estéticos e reparadores em todo o território nacional, enquanto debates sobre a assistência médica para a morte e a medicina de transição de gênero ganham novas diretrizes baseadas em questionamentos científicos recentes.
Pesquisas oncológicas apresentam novos horizontes com o desenvolvimento de uma vacina terapêutica que ataca mutações genéticas específicas em tumores cerebrais agressivos e combinações medicamentosas que reduzem em 60% o risco de reincidência do câncer de bexiga. Estudos recentes também revisaram práticas comuns, como a publicação na Nature Medicine que retratou um estudo sobre o horário ideal para infusões contra o câncer de pulmão após inconsistências nos dados de sobrevida. Na nutrição preventiva, novos achados sugerem que o consumo de refogados de alho, cebola e tomate pode atuar na prevenção do diabetes, enquanto a obesidade passa a ser tratada sob a perspectiva de doença crônica, distanciando-se do estigma de falta de vontade do paciente.
O acesso a tratamentos de alto custo continua sendo pautado pelo Poder Judiciário, exemplificado por decisões liminares que garantiram a pacientes com Alzheimer o acesso a medicamentos que retardam a progressão da doença, indisponíveis na rede pública e nos planos de saúde. No âmbito da segurança sanitária, a Anvisa intensificou a fiscalização contra lotes falsificados de medicamentos para perda de peso e atualizou regras para vacinas. Internacionalmente, o setor médico foi impactado pela condenação à prisão perpétua de um médico na Alemanha pelo assassinato de 15 pacientes com coquetéis letais, além de debates sobre o impacto de cabeceios repetidos no futebol como causa de traumas cranianos em atletas.
O futuro da prática médica no Brasil projeta um equilíbrio entre a eficiência das máquinas e a humanização do atendimento, com a telemedicina expandindo fronteiras para além das telas. A suspensão temporária da vacina contra a dengue produzida pelo Butantan, devido a reações adversas, mantém o debate sobre a transparência e o monitoramento rigoroso de novos imunizantes em destaque. Com as novas regras de avaliação profissional e a incorporação de terapias de ponta no sistema público, a expectativa é que o setor de saúde brasileiro enfrente o desafio de tratar uma sociedade cada vez mais doente, exigindo qualificação contínua e a aplicação de protocolos baseados em evidências científicas sólidas.