O Brasil consolidou sua posição como um dos líderes globais na adoção de inteligência artificial, apresentando níveis de otimismo que superam significativamente a média mundial. De acordo com levantamentos recentes, cerca de 65% dos brasileiros veem a tecnologia como promissora, frente a 57% do restante do planeta. Esse entusiasmo se reflete no uso cotidiano e profissional, onde 78% dos trabalhadores locais já utilizam ferramentas automatizadas em suas rotinas. A confiança na transição do mercado de trabalho também avançou, com a parcela de profissionais que temem perder o emprego para a tecnologia caindo de 20% para 15% em um ano, enquanto a percepção de que a inovação gerará mais oportunidades de trabalho subiu para 68%.
No cenário acadêmico e técnico, o país detém a maior produção científica sobre o tema na América Latina, operando com 144 instituições de pesquisa dedicadas ao setor. Contudo, apesar do domínio regional, o Brasil caiu da 15ª para a 20ª posição no ranking mundial de publicações, em um movimento intensificado pela pandemia, enquanto nações como China, Estados Unidos e Índia aceleraram seus investimentos. Atualmente, a aplicação prática da tecnologia no país está concentrada nos setores de indústria e manufatura, seguidos pela área da saúde e aplicações corporativas, com destaque para o uso massivo de assistentes de escrita e tradutores automáticos, que alcançam índices de adoção e valorização superiores a 85%.
A integração da ferramenta no mercado de trabalho tem sido reportada como uma forma de complementar a atuação humana em vez de substituí-la. Em setores como o bancário, a automação já é utilizada para análise de riscos e marketing digital, evoluindo agora para sistemas de linguagem que facilitam a criação de textos e a interação direta com clientes. Segundo Caetano Penna, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, o desafio atual do país é converter esse potencial acadêmico em uso comercial efetivo, o que deve ser impulsionado por ações coordenadas do governo para superar gargalos de infraestrutura e aplicação efetiva do plano brasileiro de inteligência artificial.
Paralelamente ao avanço produtivo, o uso indevido da inteligência artificial acendeu alertas sobre segurança digital e ética. O CEO da SaferNet Brasil, Thiago Tavares, aponta que ferramentas de inteligência artificial generativa estão sendo utilizadas para criar e propagar imagens de abuso e exploração sexual infantil de forma ultrarrealista. O aumento nas denúncias é impulsionado pela facilidade de manipular fotos reais de pessoas vestidas em representações de nudez, cenário agravado por cortes em equipes de moderação de grandes empresas de tecnologia. Para especialistas como Renato Rocha Souza, da Fundação Getulio Vargas, embora os riscos éticos sejam significativos, a interrupção da tecnologia é improvável, restando o desafio de mitigar danos por meio de governança rigorosa.
Para estruturar esse controle, o Brasil avança na criação do Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial, que será coordenado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados. O novo marco legal prevê sanções rigorosas e multas para descumprimentos, além de estabelecer regras para o uso de obras protegidas por direitos autorais em treinamentos de modelos, desde que não tenham fins comerciais e não prejudiquem os autores originais. Os órgãos reguladores deverão atuar em parceria com o Ministério do Trabalho para criar programas de capacitação e reduzir impactos negativos sobre os empregos formais, garantindo que a transição tecnológica seja acompanhada de proteção aos direitos do trabalhador.
O impacto prático dessas inovações já é visível em instituições de saúde, como o Hospital 9 de Julho, onde sistemas monitoram quartos para prevenir quedas de pacientes, e na detecção precoce de tumores em exames de imagem. Além do ganho de eficiência na medicina, o Brasil busca alinhar o desenvolvimento da tecnologia aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, acompanhando iniciativas internacionais que utilizam dados para combater o desperdício de água e identificar trabalho escravo por imagens de satélite. O próximo passo fundamental será a consolidação das diretrizes de fiscalização e o fomento à inovação nacional para manter a competitividade do país no cenário geopolítico tecnológico.