O governo brasileiro enfrenta um cenário fiscal complexo onde a arrecadação robusta, impulsionada pelo desempenho do PIB, contrasta com a aprovação de novos gastos públicos e uma política monetária restritiva. Nos últimos três anos, o crescimento econômico adicionou R$ 460,7 bilhões aos cofres da União, conforme estimativas do Ministério da Fazenda. Entretanto, esse alívio ocorre no momento em que a Câmara dos Deputados avança com medidas de impacto orçamentário significativo, como o reajuste salarial para servidores e a criação de cargos que podem custar R$ 5,3 bilhões este ano, atingindo cerca de 200 mil trabalhadores ativos e aposentados.
Apesar do impulso fiscal vindo do PIB, o setor industrial demonstra sinais de resfriamento. Dados do IBGE indicam que a produção industrial caiu 1,2% em dezembro, refletindo uma perda de dinamismo ao longo de 2025. Essa desaceleração está diretamente ligada à taxa Selic, mantida em 15%, o que limita as decisões de investimento das empresas e o consumo das famílias. Embora o Banco Central sinalize um ciclo de cortes a partir de março, o patamar atual permanece como um entrave para uma expansão econômica mais vigorosa, mesmo com o mercado de trabalho apresentando resiliência e aumento da renda.
O ambiente institucional é marcado por posições divergentes sobre a condução econômica e a estratégia política. Enquanto o PT critica a autonomia do Banco Central e defende o alinhamento com nações como Venezuela e Cuba, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou atritos com setores religiosos ao afirmar que 90% dos evangélicos recebem benefícios do governo, declaração contestada por lideranças do segmento. No Judiciário, o ministro Flávio Dino atua como um freio potencial aos chamados supersalários após o Congresso aprovar novos benefícios, ilustrando a tensão interna entre os poderes sobre o controle das contas públicas.
Para além do debate econômico, a saúde e a segurança pública demandam atenção estrutural. O Instituto Nacional de Câncer estima que o Brasil registrará 781 mil novos casos de câncer anualmente entre 2026 e 2028, sendo o tumor de pele não melanoma o mais frequente. Na arena legislativa, o debate sobre a redução da maioridade penal retomou fôlego no Congresso após casos de grande repercussão na segurança. Simultaneamente, o sistema de pagamentos Pix consolidou sua presença na economia ao movimentar o recorde de R$ 35 trilhões, apesar de instabilidades técnicas recentes relatadas por instituições financeiras.
A convergência desses fatores impacta diretamente a vida do cidadão e o ambiente de investimentos. A combinação de gastos públicos elevados e juros restritivos cria um desafio para a missão de eliminar déficits primários. Para a população, o aumento da demanda por saúde, devido ao envelhecimento demográfico e à elevação de doenças crônicas como o câncer, pressiona o SUS, que planeja expandir serviços de radioterapia. No plano internacional, o Brasil monitora acordos entre Estados Unidos e Argentina sobre minerais críticos, enquanto enfrenta a negativa da China em redistribuir cotas de carne bovina, evidenciando a complexidade do cenário comercial global.
Os próximos meses serão decisivos para a definição da trajetória econômica e social brasileira. O mercado aguarda o início efetivo do ciclo de redução dos juros em março e a divulgação do balanço do BNDES, que a gestão classifica como extraordinário para 2025. No Congresso, o foco se mantém na votação pelo fim da escala de trabalho 6x1 e no possível aumento da verba de gabinete para deputados. Politicamente, a definição de estratégias para 2026, incluindo o papel de novas lideranças de direita e mudanças nas regras de propaganda eleitoral, começa a desenhar o horizonte institucional do país.