As empresas brasileiras projetam um salto de produtividade impulsionado pela transformação digital nos próximos anos. Segundo a pesquisa global How Possible Happens, realizada pela Infor com 3,6 mil organizações, 74% das companhias no Brasil esperam aumentar sua produtividade em mais de 20% em um horizonte de três a cinco anos. Esse movimento é acompanhado por uma disposição de investimento robusta, com 79,3% dos empresários brasileiros planejando elevar os aportes em tecnologia em pelo menos 20% no mesmo período. A automação de processos e o uso de inteligência artificial surgem como pilares centrais para que as organizações consigam produzir mais sem necessariamente aumentar o quadro de funcionários, uma necessidade premente diante da inversão da pirâmide etária brasileira prevista para até 2040.
Apesar do otimismo, o estágio de digitalização no país ainda é considerado inicial para a maioria dos negócios. Dados da Confederação Nacional da Indústria revelam que, embora sete em cada dez empresas utilizem tecnologias digitais, a maior parte delas opera com uma quantidade reduzida de ferramentas, geralmente entre uma e três. Na indústria, o uso de computação em nuvem lidera com 77,2% de adesão, seguida pela internet das coisas e robótica. Conforme explica Flávio Peixoto, gerente de pesquisas do IBGE, existe um amadurecimento gradual na compreensão de como aplicar tecnologias avançadas no cotidiano corporativo, o que tem acelerado a adoção de soluções de análise de dados e inteligência artificial generativa no ambiente de trabalho.
A implementação tecnológica, no entanto, enfrenta obstáculos estruturais e de gestão que podem comprometer os resultados. O professor Kenneth Corrêa, da FGV, alerta para a síndrome da joia, situação em que companhias adotam ferramentas apenas por estarem na moda, sem resolver problemas reais do negócio. Para o especialista, a tecnologia só gera tração quando os profissionais entendem seu propósito; caso contrário, corre-se o risco de apenas automatizar a confusão existente. Além disso, o uso excessivo de ferramentas desconectadas pode gerar desperdício financeiro. Estimativas indicam que empresas podem reduzir custos operacionais em até 30% apenas reorganizando o uso de plataformas já existentes e ajustando contratos à realidade das equipes, evitando o pagamento por funcionalidades nunca utilizadas.
No campo da gestão, a tecnologia atua como um antídoto ao microgerenciamento e ao controle excessivo das lideranças. De acordo com Fernanda Bordini, gerente do Zoho Workplace, ambientes digitais colaborativos permitem que as equipes tenham mais autonomia e clareza sobre prazos, facilitando o trabalho em modelos híbridos ou remotos. A transição de uma gestão autocrática para uma baseada em dados permite que a tecnologia organize fluxos de trabalho rotineiros, liberando o capital humano para atividades estratégicas. Esse reposicionamento transforma áreas que antes eram apenas suporte, como o setor de TI, em agentes estratégicos fundamentais para a saúde financeira e operacional da organização.
O impacto prático dessa evolução reflete-se na tomada de decisão baseada em Business Intelligence e dados em tempo real. Em um cenário de instabilidade econômica global, a intuição tem perdido espaço para dashboards que permitem antecipar riscos e identificar oportunidades com precisão. Setores como o automotivo já colhem benefícios diretos, como a melhoria da qualidade dos produtos e a redução de custos operacionais por meio de sensores e controles automatizados. Para o cidadão comum e o mercado de trabalho, essa mudança exige uma requalificação constante, uma vez que a integração entre tecnologia e estratégia tornou-se uma exigência para a sobrevivência corporativa.
O futuro das empresas brasileiras depende agora da capacidade de escalar essas inovações para além das ferramentas básicas. O desafio imediato é superar a fase inicial de digitalização e integrar sistemas que hoje operam de forma isolada, evitando falhas de comunicação e retrabalho. Com a consolidação do machine learning e da análise de grandes volumes de dados, espera-se que as organizações que tratam a tecnologia como um ativo estratégico, e não apenas como um acessório, consigam sustentar o crescimento prometido e enfrentar as dificuldades de contratação decorrentes das mudanças demográficas do país.